Com o estabelecer da população numa zona edificada no sopé das montanhas e em anfiteatro a uma enseada que aporta os navios em segurança dos ventos, nasce uma pequena concentração urbana que será a cidade do arquipélago da Madeira. Com clima considerado de curar doenças pulmonares e terra fértil para cultivo, estabelece-se um lugar de atracção e comércio (do açúcar e depois o dos vinhos) que atraíram à Madeira numerosos estrangeiros.

História
Corsa transportando cana-de-açucar Início do século XX Fotografia - Museu Vicentes

Povoamento

Foi na ilha da Madeira o primeiro lugar onde se procurou fazer o movimento activo do povoamento, favorecido pelas condições climatéricas e pela produtividade do solo.

No livro “Para a História do Funchal”, António Aragão descreve o aparecimento de uma pequena concentração urbana que se implantou antes de 1425 na zona de Santa Maria do Calhau. Tratava-se de um aglomerado de pequenas construções (casas em geral térreas ou raramente sobradadas e cobertas de palha) onde vivia gente laborial ligada a diversos ofícios (carpinteiros, pedreiros, ferreiros, sapateiros, tecelões, pescadores, entre outros).

Teria sido neste pequeno povoado que surgiu, com o nome de Santa Maria, a primeira rua da Madeira, que corresponderia, mais ou menos, ao traçado actual e terminava num, Cabo do Calhau, hoje Largo do Corpo Santo.

Criaram-se os primeiros centros populacionais, à volta de pequenas capelas. Loteadas as terras, dedicavam-se as gentes ao arroteamento e cultura das suas parcelas à construção de habitações, não só de madeira como de pedra, e à criação de animais. Muitas casas foram cobertas de colmo em palha de trigo, o cereal que mais abundava na ilha.

Depois, a um ritmo que normalmente se vai tornando cada vez mais celebre à medida que a terra fértil se desenvolve, passando de uma elementar economia de subsistência à riqueza e prosperidade que lhe traz a produção de açúcar, as ruas vão surgindo, em caprichosa e intricada teia: a Rua Nova, a dos Mercadores, a Direita, a do Poço Novo, a do Sabão, a do Capitão, a de São Francisco, a da Carreira dos Cavalos, de João Tavira, além de muitas outras.

História
Capela do Corpo Santo, Zona Velha do Funchal. 2004

Arruamento

Os caminhos foram ramificando, sinuosos, íngremes e estreitos a partir da costa para o interior. À medida que as populações se vão fixado e os povoados surgem, ergue-se uma capela, queimam- se os arvoredos e plantam-se as searas e depois o canavial.

O transporte de mercadorias e de géneros fazia-se principalmente através de um veículo de arrasto designado de – corsa – utilizado desde os primeiros tempos de colonização.

Diz Gaspar Frutuoso, no livro Saudades da terra, 2o vol. pág. 117 – «menores e travessas, que todas estão calçadas de pedra miúda e de tal maneira que , quando chove, fica lavada e limpa a cidade e, com muitas águas que a regam no verão, sempre aprazível e fresca»

Diz Zurara em 1448: “ estava em razoável povoação, cá havia em ela cento e cinquenta moradias, afora outras gentes que aí havia assim como mercadores, homens e mulheres solteiras e mancebos e moços que já nasceram na dita ilha”.

Cadamosto escreve em 1455: “ o país é abundante de água e belíssimas fontes e tem oito regatos muito grandes que o atravessam sobre os quais estão construídos alguns engenhos de serrar (…)”

Em 1495, os moradores ofereceram ao projecto do ouvidor do Duque de mandar «calçar as ruas e fazer de cantaria as pontes de pau», por temerem que os custos de tais obras tivessem como consequência um agravamento do regime tributário.

É apenas no séc. XIX que, não só se dá início, em 1848, à ponte do Ribeiro Seco e às obras de construção da 1a estrada que se lança na ilha, e a que pomposamente se chama de momumental, como ainda se conclui, em 1892, o cais da entrada da cidade, um ano mais tarde se inaugura o primeiro troço do Caminho-de-Ferro do Monte e em 1888 terminam os trabalhos de reconstrução e ampliação do molhe da Pontinha, unindo o ilhéu de S. José ao de Nossa senhora da Conceição.

Isabel de França (inglesa que permanecem na Madeira entre 1853 e 1854) explica que as ruas do Funchal estão «todas pavimentadas de seixos, na sua maior parte aguçados; não têm passeios laterais, de forma que andar a pé não é fácil nem agradável».

Meios de Transporte

É preciso trazer as pipas cheias até ao Funchal. Então, se havia caminho minimamente praticável, vinham puxados a bois.

Hans Sloane (XVII) Uma viagem ás ilhas da Madeira, barbados, Nieves…, (in Madeira Vista por estrangeiros,, coordenação de António Aragão, pág. 161) escreve: « Transportam tudo numa corsa puxada por bois, sendo este o único meio de transporte pelo facto de esta terra ser tão acidentada e íngreme com ruas estreitas (…)»

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"Corsa” e “Borracheiros”. Início do século XX. Fotografia Perestrellos.

Isabel de França (inglesa que permanecem na Madeira entre 1853 e 1854) descreve no seu Jornal «Uma Visita à Madeira e a Portugal» a sua viagem da praia ao hotel, que ficava na Rua da Carreira (que era referida como principal rua da cidade), feita em carro de bois, que ela compara com baloiços usados nas feiras de Inglaterra, montados «sobre um trenó, com almofadas e cortinas, e tirado por dois destes bonitos bois pequeninos da terra, de pêlo castanho-escuro.

Os animais não vão a mais de um passo; usam chocalhos no pescoço, e o condutor fá-los avançar gritando sempre, repreendendo, lisonjeando, reproduzindo todo o género de extraordinários ruídos, e dizendo todo o caminho, a curtos intervalos, «Cá para mim, boi, cá para mim Esperto, ou Moreno, ou Bonito». É descrito também um rapaz que corre adiante dos bois, com um trapo que molha em cada levada ou poço que lobriga, e tira para debaixo do trenó a fim de o fazer deslizar melhor.

Como se vê, imagem típica se ainda repete, embora com carácter exclusivamente turístico e folclórico, já que o carro de bois há muito foi ultrapassado pelo automóvel, como transporte utilitário e corrente.

O carro de cesto que tradicionalmente faz o trajecto do monte ao Funchal, e que a inglesa Isabel de França menciona, considera-o como sendo um transporte mais esquisito em relação ao carro de bois. Descreve-o como uma bala disparada a velocidade que atinge e inconcebível e, um mistério como os carreiros o manobram tão depressa e tão afastados dele nunca perdem o domínio do carro e conseguem acelerar ou afrouxar a velocidade.

Bem se compreenderá a viva impressão sentida por esta recatada dama de Oitocentos, se nos lembrarmos que, mais de um século depois, este inveterado cultor do risco e da aventura que se chamou Ernest Hemingway, não hesitou em considerar a descida do monte em carro de cesto uma das mais fortes emoções da sua vida. Nos finais de mil novecentos e três há introdução do automóvel por Harvey Foster que a princípio com compostura, sem atropelos nem desmandos o estranho aparelho compartilhou ruas e caminhos com as corças e os carros de bois, com os trens e as carroças, até mesmo com os carros de cesto, quando estes, pejados de turistas, coloridos e faladores com pássaros exóticos, desciam vertiginosamente o caminho do monte, em direcção ao pombal.

Do nosso típico meio de transporte, diz Raul Brandão, no livro as Ilhas Desaparecidas, “sem a brutalidade inexpressivas da maquina nem a rapidez estúpida do automóvel, o carro do Funchal que nos permite ver e comentar, dá-me impressão de que voga e de que regressamos ao tempos primitivos e heróicos – e conjuntamente carro e barca”

Eram também utilizados os “corsões” por rapazes e pelos lavradores, para carregar molhos de lenha e de mato para o pasto.

A breve trecho o carro de bois foi convertido em atracão turística e folclórico aguardando à entrada da cidade ou a porta dos hotéis, era a moeda forte do turista apreciador do exótico.

Enquanto não se vulgarizou o uso do gás e da electricidade, continuaram a descer da serra, ao ombro ou em corsa, muita saca de carvão de urze e muita acha de pinho ou eucalipto, ate fogões, fornos e caldeiras.

A medida, porém, que os carros de carga, nos seus variados tipos e tamanhos, foram patenteando méritos e vantagens, tudo isto foi desaparecendo inevitavelmente.

Nos meados da década de 1880, o desenvolvimento dos novos meios de transporte, (locomotiva, avião e automóvel) originou uma espécie de “contracção geográfica”. Levou a que as forças das máquinas substitui-se cada vez mais a força do homem e dos animais. Estes novos transportes, foram travados pelo acidentado do terreno e forte declive.

 

História
Carro de Cesto com Toldo puxado a Bois Fins do século XIX Fotografia - Museu Vicentes
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Carros de Cesto puxado a Bois Fins do século XIX Fotografia Perestrellos

Carros de Arrasto

O carro de bois, nascido da possível inspiração do modelo do nordeste português, e também da influência da corsa madeirense adaptada ao transporte de pessoas. Foi no primeiro quartel do século XX o meio de transporte colectivo mais usado no Funchal e nas fajãs, uma vez que, nas encostas escarpadas, o seu uso se tornava impróprio.

O carro se arrasto, assemelha-se a um tipo de “caleche”, sem rodas, arrastado por bois. Estes carros compõem-se de uma caixa de vimes ou madeira, com uma armação de ferro que sustenta um toldo ou tecto donde pendem cortinas, e é assente em molas fixas numa espécie de trenó de madeira. Não tem rodas, nem jogo dianteiro, e é puxado por bois, que ali são de qualidade pequenos, mas de uma velocidade notável. Adiante destes bois vai um rapaz, a que chamam candieiro, pegando no sogo; e ao lado do carro, um homem que pica os bois, e guia o carro, lançando-lhe a mão, e puxando-o para um ou outro lado.

História
Carro de bois com o signo-saimão Fins do século XIX. Fotografia - Museu Vicentes

Para o transporte de cargas usam as corsas ou corsões (corsas grandes), que se compõem de dois madeiros paralelos e unidos entre si, com  1,6m a 3,0m de comprimento e meio metro de largura. Para facilitar o atrito e escorregamento dos carros e corsas um pano cheio de sebo, que lançam no chão, adiante do carro, e sobre o qual este passa, deixando ensebada a superfície de arrasto do trenó e as calçadas das ruas, apesar de uma postura municipal proibir o uso do sebo. Assim, quando uma chuva miúda humedece as calçadas, é dificílimo o caminhar por elas sem escorregar.

Os novos meios de transporte (automóvel) faziam, timidamente, a sua aparição por toda a ilha, onde o comboio do Monte e carro americano eram exclusivos no Funchal.

Para as áreas de declives fortes e caminhos calcetados, fez-se uso do veículo de arrasto, actual carro de cesto, com um assento para duas pessoas construído em vime sobre duas soleiras de til ou de pinho, onde na parte frontal ficam presas as cordas ou correias delgadas destinadas a dirigi-lo.

O carro de cesto, típico do Monte, surgiu a meados do século XIX . Oos viajantes que visitaram a Madeira antes de 1846 não fazem referência a este meio de transporte mais sim a pequenas “corsas” que devido a circunstâncias de ordem do utente, podiam ser utilizadas no transporte de pessoas.

Este meio de transporte, constitui uma adaptação da “corsa” no transporte de passageiros: “assemelha-se a um canapé curto, feito de vimes, bem forrado e almofadado, o qual está fixo a um trenó e ligado a cordas; dois homens dão-lhe um empurram e ele desce a calçada pelo seu próprio peso, num andamento que é natural, acelera a cada instante, quando os ditos homens seguram as cordas e correm atrás a grande velocidade, fazendo o possível a que o trenó se precipite. Vai como uma bala disparada; a velocidade que atinge é inconcebível (mistério como os carreiros o manobram tão depressa e tão afastados dele): nunca perdem o domínio do carro conseguem acelerar e a afrouxar à vontade, admirável também a forma como se desviam quando encontram no caminho o carro de bois, o “palanquim” ou seja lá o que for.)

carreiros 1930
Carreiro transportando carro de cesto. Rua do Pombal.
História
Carro de Cesto e respectivos “Carreiros”. Fins do século XIX. Fotografia Perestrellos

Havia também o carro de cesto grande que era puxado a bois (senão a pessoas) e constava de uma prancha de madeira de til ou nespereira com 10 palmos de comprimento e 2 de largura, tendo nos lados da sua superfície umas tiras de madeira, com uma abertura para a passagem de uma correia ligada à lança ou solas feita de pinheiro permitindo a atrelagem.

Carro de cestos – 1930

Os homens que assistiam os carros de arrasto trajavam calça branca, bota chã, alguns faixa a cinta de cor, de bainha de rede, chapéu de palha da ilha.

Formou-se a “Associação dos carreiros do Monte” que pugnava pelo bom funcionamento da actividade e defesa dos interesses de classe: avisando a junta

do estado do caminho para não surgir acidentes ou problemas de maior.

Existia uma tabela de preços máximos de passagens para a descida do Monte. A sua equivalência em moeda estrangeira, aprovada pela Câmara Municipal.

O serviço (até às 9 horas da noite) entre o Monte e o Funchal, conduzindo uma pessoa era de 400 reis( 2 Schillings, 2 Marcos, 2,5 Francos); conduzindo 2 pessoas era precisamente o dobro.

A descida em carros de cesto (carros pequenos) podia ser realizada a partir do Monte, Choupana e Caminho do Palheiro.

Assim:

Para a descida do monte: na estrada, entre a Igreja e a Estação de Caminho de Ferro
Para a descida da Choupana: no Caminho do Meio, sítio da Choupana
Para a descida do Caminho do Palheiro: no caminho, próximo à quinta do Palheiro.

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comboio e carro de cestos

A origem desta paróquia vem da fazenda povoada que ali tinha Adão Gonçalves Ferreira (1440-1500), o primeiro homem que nasceu nesta ilha e que era filho de Gonçalo Aires Ferreira (1390 - ?), o mais distinto companheiro de Zargo na descoberta do arquipélago. Como geralmente acontecia, era uma pequena capela o centro em torno do qual se agrupavam os primeiros povoadores, tendo Adão Ferreira levantado ali pelos anos de 1470 uma modesta ermida, que parece ter tido o nome primitivo de Nossa Senhora da Incarnação, passando depois a chamar-se Nossa Senhora do Monte, devido certamente ás condições orograficas do local, que bem justificavam a nova e apropriada denominação. Outros afirmam que a milagrosa aparição da imagem da Santissima Virgem, que logo começaram a chamar Nossa Senhora do Monte, é que deu origem a que a capela tomasse este nome, que se transmitiu ao sítio e mais tarde a toda a paróquia.

Freguesia Nossa Senhora do Monte

Embora seja este o seu histórico e verdadeiro nome e desta maneira se ache escrito nos documentos oficiais, a começar pelos que se guardam no respectivo arquivo paroquial, é, porém, certo que se tornou mais geralmente conhecida pela denominação de freguesia do Monte, em atenção às tendências simplificadoras da linguagem popular, que procura sempre seguir a lei do menor esforço.

Apesar do nome que conserva, não fica situada no cume ou nas vertentes dum isolado monte, mas demora a meia encosta das elevadas montanhas que circuítam os arredores da cidade. O importante núcleo de população, que, logo nos primeiros tempos, se constituiu no Funchal junto das margens do oceano, foi-se gradualmente estendendo e alargando pelas lombas e outeiros circunvizinhos, procurando por vezes lugares invios e quasi inacessíveis. Não tardaria que o desbravamento dos arvoredos e matagais, e o correlativo arroteamento das terras, alcançasse as alturas desta freguesia ao menos nos limites que a confinavam com o primitivo Funchal. Os casais iriam lentamente avançando pela escalada da abrupta serrania, e lá mais no alto se encontrava já a pequena e devota ermida de Nossa Senhora do Monte, que emprestou o nome ao sítio e depois á futura freguesia.

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A lenda dessa aparição miraculosa vem narrada, nos seguintes termos, no verso das gravuras que representam a pequenina e veneranda imagem: «Ha mais de 300 anos, no Terreiro da Luta, cerca de 1 quilómetro acima da igreja de N.a S.a do Monte, uma Menina, de tarde, brincou com certa pastorinha, e deu-lhe merenda. Esta cheia de jubilo, refere o facto á sua família, que lhe dão deu credito, por lhe parecer impossível que naquela mata erma e tão arredada da povoação aparecesse uma Menina. Na tarde seguinte reiterou-se o facto e a pastorinha o recontou. No dia imediato, à hora indicada pela pastorinha, o pai desta, ocultamente, foi observar a scena, e viu sobre uma pedra uma pequena Imagern de Maria Santissima, e á frente desta a inocente pastorinha, que a seu pai inopinadamente aparecido, afirmava ser aquela Imagem a Menina de quem lhe falava. O pastor, admirado, não ousou tocar a imagem, e participou o facto á autoridade que mandou coloca-la na capela da Incarnação, próxima da actual igreja de «N.a S.a do Monte», nome que desde então foi dado aquela veneranda Imagem.» Esta narrativa não difere essencialmente duma descrição manuscrita, que possuímos, do meado do século XVIII, a qual por sua vez se baseava numa ininterrupta tradição oral. Nessa descrição se encontra o seguinte interessante pormenor: «No dia seguinte amanheceu a S.a fora da Hermida, na fonte a ella vezinha sobre hua pedra naqual sevem ainda hoje alguns caracteres antigos que mal se percebem. . . » Esta pedra preciosissima, diz o padre Joaquim Plácido Pereira, ficou soterrada no fundo do Ribeiro de Nossa Senhora, quando a Câmara Municipal do Funchal mandou ampliar o Largo da Fonte, em 1896.

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A capela fundada por Adão Gonçalves Ferreira foi a sede da paróquia, quando esta teve a sua criação por alvará régio de 7 de Março de 1565. As acanhadas dimensões do pequeno templo obrigaram talvez ao acrescentamento dele pouco depois da criação da freguesia, tendo também, no ano de 1688 o Conselho da Fazenda autorizado a despesa de 900$000 réis para a construção duma nova igreja, o que parece se não realizou, por isso que em 1739, isto é 50 anos depois, se mandaram dar de arrematação, por 6.742$000 réis, as obras da edificação dum novo templo.

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De tudo parece concluir-se que a primitiva ermida sofreu algumas transformações no decorrer dos tempos, mas que perdurou até o ano de 1741, em que foi inteiramente demolida, tendo-se no dia 10 de Junho deste ano realizado o lançamento da primeira pedra. A nova construção foi dada por concluída no ano de 1747, dispendendo-se nela a importância de 3.454$292 réis proveniente de vários donativos e esmolas dos fiéis, além da mencionada quantia de 6.742$000 réis, concedida pelo erário publico. Continuaram, porém, as obras de ornamentação e da construção de varias dependências da igreja e das casas que lhe ficam anexas.

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Um ano depois, o terremoto de 1 de Abril de 1748 (V. Tremores de terra), que tantos prejuízos causou nesta ilha, deixou bastante danificada a nova igreja, que exigia importantes e imediatas reparações. Sem demora se iniciaram os respectivos trabalhos, que, no entretanto, prosseguiram com lentidão, levando alguns anos o seu total e definitivo acabamento. Aproveitou-se o ensejo para corrigir quanto possível alguns graves erros cometidos na construção começada no ano de 1741, o que tornou mais avultado o custeio das reparações que ali se fizeram. Segundo uma nota lançada num dos livros do arquivo paroquial, o dispêndio total das obras, incluindo o templo com o seu adro e escadarias, muralhas, as casas anexas e vários ornamentos e alfaias, foi de 200:445$500 réis, quantia, sem duvida, bastante considerável para a época. Para acudir a essas avultadas despesas, fizeram-se peditórios em toda a ilha, tendo também contribuído muito para elas a Confraria dos Escravos de Nossa Senhora do Monte, instituída em 1750 pelo bispo D. Frei João do Nascimento, que em breve se estabeleceu em todas as paróquias, despertando grande devoção entre os fiéis e cujas receitas foram na sua quasi totalidade aplicadas aquele fim.

A igreja do Monte, que foi sagrada pelo bispo D. Frei Joaquim de Meneses e Ataide a 20 de Dezembro de 1818, não apresenta na sua arquitectura, nos seus ornatos e decorações, quadros, pinturas ou trabalhos de talha em madeira, uma obra artística de notável valor ou de aprimorada factura, que chame a atenção dos visitantes, ou mais ainda dos entendidos em cousas de arte, mas é sem duvida um dos mais bem proporcionados templos desta diocese, que, pelos seus traços arquitectónicos, algumas decorações internas, vários quadros e belezas de conjunto, merece ser visitado. Como a aprazível e encantadora estancia do Monte tem sido sempre visitada pelas mais altas personagens que passam nesta ilha, a respectiva igreja tem igualmente merecido a visita de muitas dessas personagens, contando-se entre elas as duas imperatrizes do Brasil-Leopoldina e Amelia-imperatriz da Austria, Isabel, infante D. Luis, depois rei de Portugal os reis D. Carlos e D. Amelia, etc.. Nesta igreja se encontra a sepultura provisória do imperador da Austria, Carlos, que faleceu nesta freguesia a 1 de Abril de 1922 e do qual nos ocuparemos em outro lugar desta obra.

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imagem gráfica de filipe gomes

Gaspar Frutuoso, que escreveu as Saudades no ano de 1590, não se refere ao culto tão generalizado em toda a ilha, prestado a Nossa Senhora do Monte, fazendo no entretanto menção dum facto miraculoso (Saudades, pág. 250), sucedido por ocasião do terrível saque que os huguenotes deram no Funchal, no dia 3 de Outubro de 1566. É, porém, muito antiga a devoção consagrada em todo o arquipélago á Senhora do Monte, e desde o segundo quartel do século XVII que, no respectivo arquivo paroquial, se encontram muitas referências a esse culto e se fazem narrações de sucessos extraordinários atribuídos à intercessão da Santíssima Virgem, por intermédio da piedosa imagem que ali se venera. Contudo, parece certo que depois da instituição da Confraria dos Escravos de Nossa Senhora do Monte, por meados do século XVIII, é que se tornou mais intenso e mais se generalizou por todas as freguesias da Madeira esse culto, começando então as peregrinações e romagens ao respectivo templo a ser de maior afluência de fiéis, que pelos anos fora têm sempre crescido e consideravelmente aumentado, constituindo hoje a mais concorrida romaria de toda a ilha e contando-se por dezenas de milhares os indivíduos que por ali estacionam nos dias 14 e 15 de Agosto de cada ano.

Depois da aluvião de 9 de Outubro de 1803 (vol. I, pág. 54 e ss.), o bispo diocesano, cabido, clero e fiéis colocaram a ilha, e especialmente a cidade, sob a protecção de Nossa Senhora do Monte, o que foi confirmado por Rescrito Apostólico de Pio VII, de 21 de Julho de 1804, sendo então instituída a festa do Patrocínio de Nossa Senhora do Monte, celebrada a 9 de Outubro de cada ano, com procissão solene que da Catedral se dirigia á igreja paroquial de Santa Maria Maior. O nove de Outubro foi em outro tempo dia santo de preceito, precedido de vigília própria com jejum.

A capela fundada por Adão Gonçalves Ferreira, teve seu capelão privativo, e já em 1565 quando nela se estabeleceu a sede da paróquia, ali se exerciam há muito as funções cultuais. O primeiro pároco que teve esta freguesia foi Bento Fernandes, seguindo-se-lhe neste cargo os padres António de Amorim, Sebastião de Amorim, Pedro Nunes de Afonseca, Pedro Nunes Furtado, Pedro Noronha de Mendonça, Inácio Espinola de Castro e Meneses, etc..

Ao primeiro pároco foi arbitrado o ordenado anual de 12 000 réis, que, por alvará régio de 1 de Março de 1577, foi acrescentado com dois mil réis e um moio de trigo, tendo então a freguesia 58 fogos, ou sejam menos de 300 habitantes. O alvará régio de 9 de Junho de 1581 elevou a côngrua a 25.000 réis anuais e o de 27 de Abril de 1591 fixou esse vencimento em 16.000 réis em dinheiro, um moio de trigo e uma pipa de vinho. Não conhecemos a data da criação do curato desta freguesia, mas julgamos que deve ter sido na segunda metade do século XVIII.

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Lembrou-se alguém de chamar a esta freguesia a Sintra Madeirense, tendo o antigo e distinto jornalista João Augusto de Ornelas tornado conhecido esse nome pela vulgarização que dele fez nos seus escritos. Já hoje é com tal denominação citada em varias obras nacionais e estrangeiras. Sem querer negar ou justificar a razão do gracioso nome, não pode pôr-se em duvida que esta paróquia é das mais belas e encantadoras da Madeira, não somente pela sua pujante vegetação, surpreendentes panoramas, pitoresco e amenidade do lugar, situação admirável e sobranceira à cidade, mas também pela frescura do sítio, limpidez e pureza das suas águas, os seus belos passeios, o seu formoso parque, os seus excelentes hotéis, o ascensor, o restaurante Esplanade, e ainda igualmente as suas numerosas quintas e casas de campo, que por toda a parte se encontram, sendo esse conjunto de tão apreciáveis circunstancias que torna o Monte o arrabalde opulento e nobre do Funchal, a estancia preferida para a quadra estival, um verdadeiro e apetecido éden para os favorecidos da fortuna (1921).

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Entre as diversas quintas existentes na freguesia, destaca-se a conhecida Quinta do Monte, sendo uma das mais belas e ricas da Madeira, pela sua sumptuosa casa de habitação, opulenta e artisticamente mobilada, magníficos jardins, matas, hortas e pomares, donde se desfrutam vastos e surpreendentes panoramas. Foi construída pelo súbdito inglês James David Gordon no segundo quartel do século passado, passando depois á posse de Leland Cossart, e sendo hoje propriedade de Luís da Rocha Machado. (V. Almanach do Diário da Madeira, de 1915, pág. 6). Ali residiu alguns meses e ali faleceu em Abril de 1922, o imperador Carlos de Austria. – O cônsul inglês Charles Murray edificou por meados do século XVIII a quinta do Belo Monte. Em 1817, era seu proprietário Roberto Page, que ali recebeu a imperatriz do Brasil, Leopoldina. Passou mais tarde á casa da Calçada, pertencendo hoje ao capitão Francisco W. Frasão Sardinha (1921). -A quinta do Pico da Pedra foi há poucos anos construída pelo banqueiro Luís da Rocha Machado para sua residência (1921).
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Apenas nos referimos especialmente a estas quintas, porque teríamos que ir longe, se pretendêssemos ocupar-nos das outras vivendas de verão, algumas das quais são excelentes e confortáveis casas de campo, que se encontram dispersas nesta freguesia.

Um dos elementos de prosperidade e engrandecimento da freguesia do Monte, foi a construção do elevador, que atrai ali a maior parte dos estrangeiros em transito pelo nosso porto e que são muitos milhares em cada ano. O caminho de ferro, desde o Pombal até ao Terreiro da Luta, tem aproximadamente quatro quilómetros de extensão, e já dele nos ocupámos a pag. 221 do 1.° volume desta obra(1921).

A freguesia do Monte é hoje servida por uma estrada de propriedade particular, destinada a automóveis, o que bastante concorre para a maior afluência de forasteiros àquela localidade. Foi construída há poucos anos, ficando num dos extremos da estrada da Levada de Santa Luzia e no prolongamento da Avenida Pedro José de Ornelas.

Não pode deixar de merecer-nos uma especial referência o característico meio de locomoção empregado em conduzir os visitantes que do Monte regressam à cidade. São uns pequenos carros de vimes, imitando os trenós russos, que resvalam vertiginosamente pela declivosa ladeira, impelidos por indivíduos longamente adestrados neste serviço e que a ele quasi se dedicam exclusivamente. São inúmeras as referências que a este típico meio de condução se encontram em muitas obras nacionais e estrangeiras. Apesar do perigo que ele naturalmente oferece, são raros os desastres ocorridos, devido à extrema perícia dos condutores (vol. I, pág. 252).

autor

Filipe Gomes

Professor

Bibliografia

  • SILVA, Fernando Augusto da Silva; MENEZES, Carlos Azevedo . (1966) “Elucidário Madeirense”.
  • SUMARES, Jorge; SIMÕES, Álvaro Vieira e SILVA, Iolanda . (1983) “Transportes na Madeira”, Direcção Regional dos Assuntos Culturais.
  • TRIGO, Adriano A.; Annibal. (1910) “Roteiro e Guia do Funchal”. Typografia Esperança. Funchal.
  • RAPOSO, Francisco Hipólito; CLODE, Luísa. “Portugal Passo a Passo”. Volume Açores Madeira, Clube Internacional do Livro.